22 December, 2008

Avaliação com face humana dos dinamarqueses em Moçambique

Avaliação com face humana dos dinamarqueses em Moçambique

Peter Tygesen Terra da boa gente - Dinamarca em Moçambique De gode menneskers land - Danmark i Mozambique, People’s Press

Gostei bastante deste calhamaço de quase 500 páginas de Peter Tygesen. De gode menneskers land foi escrito para um grupo-alvo específico: O público dinamarquês.
É resultado duma avaliação feita pela autoridade dinamarquesa de cooperação, Danida. Resolveram contratar economistas e avaliadores habituais, mas também ligar um jornalista que tinha acesso a toda a documentação, relatórios etc. da equipa e que tinha carta branca para escrever o que quisesse.

Para mim são novos reencontros muito apreciados, cheios de recordações e emoções. Me sinto muito à-vontade no livro.
Visitei a maioria dos lugares descritos no livro: Maputo, Hotel Terminus, Avenida Martires de Machava, Trinta e três andares, a Embaixada da Dinamarca, casa MONAP, a fábrica de Cimentos em Matola, Malawi, Tete, Angonia, Ilha de Moçambique, Beira. Andei muitas corridas ’hasch’ com o madala Arne Mortensen da Ibis.

É fácil ficar preso ao livro pela sua disposição que parece uma sinopse dum filme. Retratos de indivíduos moçambicanos e dinamarqueses estão misturados com textos mais factuais sobre a historia de Moçambique e da cooperação moçambicana-dinamarquesa. Às vezes são cortes muitos rápidos. O jornalismo do Tygesen é rápido, eficiente e empático.

As pessoas-chave da obra são Ana Matusse da Gaza, Emilie Costa de Chirombo na Angónia, Isabel no Polana Caniço, David Aloni do Angónia, Francisco Pires nascido em Lisboa, Filomeno Samikoni de Domué, Angónia e Jens Hougard de Svendborg, Dinamarca. Todos têm algo a contribuir para completar o conto da relação dinamarquesa-moçambicana. Tygesen conta a história moderna de Moçambique através das vidas dessas pessoas.
As pessoas retratadas não são conhecidas, excepto uma pessoa, David Aloni, membro destacado da Renamo até ao seu falecimento há meio ano. É um retrato muito interessante.

O livro pode ser descrito como um panorama que inclui a história resumida desde o ano 1000 até 5 de Fevereiro de 2008 quando rebentou a revolta contra a subida de preços dos chapa-cem, um acontecimento que só teve um relator eficiente: Carlos Serra e o seu blog Diário de um Sociólogo. As épocas de Salazar, da PIDE, do chibalo, da WNLA, das companhias de Boror, Madal e Sena são todas contadas duma maneira pedagógica e arrebatadora.

De gode menneskers land lembra um pouco os murais dos tempos revolucionários, por exemplo na Praça dos Heróis. Aí entra tudo. Coisas grandes misturadas com coisas pequenas. É um verdadeiro panorama, quase um conto épico.

Como os dinamarqueses sempre deram ênfase à província de Tete e na Angonia, e como muitas das pessoas-chave no livro são de Tete, esta província domina o livro. Não faz mal, pois mesmo assim dá o sabor da vida diária dos moçambicanos.
O livro descreve bem a vida dos camponeses, sobretudo dos que investem em culturas de rendimento como o tabaco. O tabaco tem um papel especial no livro.

Um aspecto da cooperação que muitas vezes é negligenciado está bem ilustrado neste livro. É que a ajuda faz parte dos negócios estrangeiros de qualquer país doador. No caso da Dinamarca isso ficou bem claro durante a crise de lixo perigoso. É dedicado um capítulo à grande briga ligada ao tratamento de lixo perigoso nos Cimentos de Moçambique em Matola nos fins dos anos 90.

O autor apela a todos sentidos: a vista, o olfacto e o ouvido. Evidentemente Tygesen gosta de Moçambique e dos moçambicanos. É fácil simpatizar com ele.

Tygesen descreve quase em paralelo o desenvolvimento da luta da Frelimo contra os portugueses e a guerra da Renamo contra o Governo da Frelimo. Lembro-me muito bem de viajar de avião com altos funcionários do Ministério da Educação no início dos anos 90 ao norte do país e de traçar os mesmos paralelos. Sempre fiz a reflexão que a Renamo conseguiu bloquear ainda mais o país que a Frelimo no fim da guerra contra o sistema colonial.
Tygesen dedica muito espaço para descrever e explicar o desenvolvimento da Renamo. Para alguém que já leu muito sobre este período, Tygesen não apresenta novos factos ou teorias, mas contribui para facilitar o entendimento do público geral dinamarquês.

Tenho uma pequena objecção. Quando Tygesen fala da cooperação dinamarquesa e do papel dela, sinto que ele escreve mais como um advogado da Danida do que como um jornalista crítico. Tenho a certeza que alguns dos chamados doadores congéneres (like-minded) muitas vezes sentiam que precisamente os dinamarqueses não eram muito ”congéneres”, tendo sim uma linha oposta a todos os outros. Tygesen apresenta a Dinamarca como o doador ideal e sempre pioneiro no desenvolvimento de métodos e princípios. Uma atitude mais objectiva e crítica seria mais apropriada.

As avaliações da cooperação ou de projectos normalmente são documentos pouco acessíveis, cheios de estatísticas e tabelas, muitas vezes escritos duma forma académica. A ideia de empreender uma avaliação paralela feita por um jornalista conhecedor do país e da história e com amor pelo povo descrito e pelas pessoas deveria ser tentada mais vezes por outras agências. Será que a Asdi um dia vai poder incluir os autores Henning Mankell ou Anders Ehnmark em equipas de avaliação da cooperação sueco-moçambicana?

O livro me deixou com saudades dos amigos moçambicanos, de Moçambique, de Maputo, da Avenida Friedrich Engels, de Niassa e de Lichinga. É um livro interessante e cheio de leitura que vale a pena moçambicanos e muitos outros apreciarem.
É pena que ainda só esteja publicado em dinamarquês, merece um público mais amplo. Parece que estão em curso esforços para traduzi-lo.

Tygesen, a Danida e todos os dinamarqueses interessados na cooperação e curiosos de saber mais sobre Moçambique estão de parabéns.

Bosse Hammarström

O meu ’currículo moçambicano’
1970-1971 Professor de História na Escola Secundária da Frelimo em Bagamoyo, Tanzânia
1976 Visita a Moçambique de dez dias em Maio, Junho
1987 Agosto-Dezembro Conselheiro na área de calamidades, UNDRO
1991-1995 Oficial do Programa de Educação, Administração Pública, Asdi, Maputo
1995-1998 Oficial de Programa, Administração Pública (MOZ), Asdi, Estocolmo
1998-2003 Oficial de Programa, Programa de Niassa, Asdi, Maputo e Niassa
2003-2007 Oficial de Programa, Administração Pública (MOZ), Asdi, Estocolmo

Military removal of Mugabe would be regional disaster

Mail & Guardian, Adam Habib